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Eva Duarte: Evolução


Acordei na mesma cela cinzenta. Fazia hoje uma semana que ali estava, portanto duas semanas desde que me perdi e encontrei esta cidade no meio de nenhures. Era estranha pela sua gente, pois a gente é que faz as cidades. Eu não tinha qualquer medo do que me poderiam fazer, mas confesso que tinha bastante curiosidade. Reconheço que é um sentimento estranho para um recluso, mas se alguém vivesse pelo que estou a viver sentiria o mesmo. Para começar, fui entrevistado por crianças com um nível de inteligência soberbo. Conheci muitos homens de estudo incapazes de raciocínios iguais aos daquelas crianças. Desde então que aguardo nesta cela, tentando adivinhar o que se seguirá.

Calculo que o dia progrida. Oriento-me pelas refeições que homens e mulheres silenciosos me vão trazendo com uma pontualidade excelente. Mas hoje, a minha rotina é quebrada por um som que vem fora de horas. Ouço passos a aproximarem-se da porta, que é aberta com a mesma cerimónia do costume. Vejo um pequeno rapaz junto com um dos seguranças. Não deve ter mais de nove anos e parece um anjo com aquela cabeleira loura.

A criança entra, deixando-se trancar comigo na cela. Fico subitamente nervoso pela expectativa e não sei se me levanto ou me mantenho sentado. O rapaz espanta-me com a sua calma e eu deixo-me ficar como estou. Ele cumprimenta-me, dizendo que se chama Zulla, e eu apresento-me. Antes de poder questionar o rapaz, ele diz-me que tenho de morrer amanhã pela manhã. Eu rio-me, pois custa-me levá-lo a sério devido à sua juventude. Ele olha-me, parecendo compreender porque acho graça à situação. Portanto, com uma grande assertividade, repete a minha sentença.

Desta vez, não acho tanta piada às suas palavras. Os olhos dele parecem ter uma grande inteligência. Ele fala novamente interessado em saber se tenho alguma dúvida quanto à minha morte. Dúvidas?, penso pálido, estamos a falar do fim da minha vida e nem sequer sei porquê! Claro que tenho dúvidas! Rebento e quero que ele me explique o que tinha eu feito para ser condenado à morte.

Ele explica-me que para entender a razão teria de entender a gente daquela cidade. Aquilo agita ainda mais as minhas interrogações. Certo que eles são gente curiosa, mas matar pessoas sem crime? Que tipo de ameaça representava eu? Zulla explica-me:

— O nosso povo é diferente e como tal é obrigado a regras diferentes. As crianças nascem com uma enorme capacidade de aprendizagem e quanto mais novo mais sábio. À medida que envelhecemos perdemos a nossa capacidade cognitiva. E quando se é tão iluminado como somos as decisões centram-se no bem maior, não para fins egoístas. Se por acaso isso acontece, envelhecemos duas vezes mais depressa. Tu não és assim. O modo como aprendes pode ser perigoso para nós. Vais aprendendo com a idade e, se te deixarmos viver entre nós, poderias reunir conhecimento suficiente para talvez nos levares à destruição.

— E se me deixassem partir? Não contarei a ninguém sobre a vossa particularidade!

— Se ofereces segredo para salvar a tua vida, como poderei saber se noutra ocasião não o trocas para te protegeres uma segunda vez? Não, fora de questão. Eventualidades estão sempre a acontecer. Não irei pôr em risco a minha gente. Há outra opção, mas os poucos que a aceitam depressa desistem. Podias ir para os trabalhos forçados, onde alguns dos nossos adultos vão quando já não são capazes de pensar. De manhã à noite trabalharias, sem ninguém com quem ter uma conversa produtiva. Ficarias lá até estares senil ou velho o suficiente para não representares perigo e viver entre nós. Mesmo que não desistisses, poderias não viver até à tua liberdade.

De facto aquilo não seria grande vida. Mas seria preferível à morte? O medo que tinha da morte fazia-me querer aquela alternativa, mas eu não estava habituado ao trabalho manual e muito menos do tipo pesado. Eu sou um homem de livros, viver assim poderia ser uma outra forma de morte para mim.

— Posso ver a cidade antes de decidir?

Zulla assente. Com uma escolta de quatro homens sou conduzido pela cidade. Para começar, a geometria e a arquitectura são tão simples que me comovem. Homens e mulheres adultos passeiam com olhos mortiços de máquina. Nenhum com mais de trinta anos. Zulla explica-me que a partir dos trinta a capacidade cognitiva deteriorava por completo e esses eram dirigidos aos trabalhos forçados. Dos quinze aos trinta procriavam e faziam trabalhos menores. Era uma cidade completamente organizada e comandada por crianças.

— O conhecimento é uma arma perigosa. Não sabemos porque somos assim, mas pensamos ser um passo na evolução humana.

De seguida, é-me concedida a honra de conhecer os chefes da cidade (título que não me convence, pois sei que vou conhecer um grupo de crianças). O mais velho de todos devia ter uns cinco ou seis anos. A mais nova, Zulla disse-me ter ano e meio. Falam como adultos, nas suas pequenas vozes e pequenos corpos. Nunca me senti tão ignorante, porém queria ficar mais tempo, aprender tudo o que me poderiam ensinar, tentar perceber aquele grupo de degenerados ou filhos do futuro. No fim da visita, Zulla pergunta-me se já me decidi. Com o peito cheio, sorrio e comunico a decisão. O rapazinho anui, sem contestar.

Na manhã seguinte, ergo a cabeça. A decisão tinha sido fácil, concretizá-la e levá-la a cabo pareceu-me a tarefa mais pesada que alguma vez cumpri. Não se vive até tomarmos uma decisão maior que nós. Zulla está comigo para que não me sinta sozinho, o que não me deu alívio algum. Passa-me um copo e observo-o. Acho maravilhoso ter uma coisa familiar nas mãos.

— Bebe em paz. Podemos parecer impiedosos mas somos apenas cautelosos e não tentamos ser cruéis. Bebe, que te prometo que não será uma morte dolorosa.

É tudo tão irreal! A minha morte estava naquele copo e a minha vida fora dele. Bebi e Zulla tinha razão. Não doeu nada.

Por: Eva Duarte
Eva Duarte é uma jovem escritora portuguesa. Em 2010, publicou o romance infanto-juvenil «Angelyraa – Humanidade de Cristal» e o conto «A Lua Também Chora».

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